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  • vitorleal7

26 DE DEZEMBRO

Todo dia vinte e seis de dezembro era dia de ir à Disney. 

Espera aí, sozinho não, claro. Li certa vez em um livro do Homem Aranha que “grandes poderes trazem grandes responsabilidade”. Eu, então, menino da comunidade criado pisando em lacraia, dividi a responsa com meu melhor amigo Cabelo. Bom, aqui um pouco mais de formalidade para apresentar esse meu irmão da vida. Carlos, esse é seu nome.

Filho da amiga da minha mãe, desde quase bebê, entra e saí de casa sem precisar pedir licença. Mais folgado que meia doada, deixei de ser chamado de Clayton pelo apelido dado por ele. Desde então, me tornei, oficialmente, na galera, o Magrinho ou, ainda, o Magrinho Sapiência, pela minha fixação por leitura.

Já o apelido dele, Cabelo, veio de sua obsessão de deixar aqueles fios em forma de círculo crescerem até o meio das costas, desafiando a gravidade.

Enquanto eu lia tudo na minha frente, ele procurava entre os sacos plásticos pretos e azuis do lixão qualquer coisa de rock. Não preciso falar que ela era o esquisitão da quebrada, barulheira de guitarra na comunidade só entrava mesmo nos ouvidos escondidos do Cabelo.

A explicação disso tudo é a tal memória afetiva. Uma espécie de saudade com nome bonito que faz a gente sentir gosto e experimentar em nós mesmos o sabor de quem se foi. Assim aconteceu com o Cabelo, quando ele se tornou roqueiro por ter achado em uma gaveta da mãe uma bermuda, uma camiseta preta de banda e uma revista de Rock, pertencentes do pai desaparecido. 

Naquele fim de ano, nesse trechinho mágico dos rolês da Terra, os fios de energia da rua já estavam cheios de gambiarra para alimentar as luzes das festas, o povo andava de roupa nova e o boteco cheirava a cerveja e bafo vindo das gargalhadas na mesinha de sinuca. Eu e Cabelo, passando de frente ao barzinho, escutávamos a zoeira da galera que sabia das nossas aventuras do dia vinte e seis.

— Vão no fedor molecada? Vão no peido do prefeito? 

Eu olhava para o Cabelo e na mesma hora nos divertíamos enfrentando a zoeira: “vamos na Disney, rapaziada”. Amizade é isso, sonhar junto, realizar. Se um amigo voasse na frente de Ícaro sua sombra protegeria as asas do sol.

— Cabelão, meu parceiro. Tá chegando, maluco.

— Mano, não vejo a hora. Em 2018 morreram uns monstros do rock. Agora em 2019 já devem ter enjoado das coisas dos caras e vai estar cheio de parada legal, revista, boné, quem sabe até camiseta para eu pegar.

— Calma. A Disney nunca decepciona.

A dificuldade de entrar dava embrulho no estômago. Os donos da reciclagem marcavam em cima para ninguém entrar sem aquele crachá com os dizeres mágicos: “Lixão Ultra”. Mas a gente tinha nossa correria.

Professor Edson, Didi, sabia das nossas artimanhas nesse período. No penúltimo dia de aula, como nos outros anos, nós o procuramos.

— Professor Didi, aquele crachá esperto, ajuda a gente?

— Vocês são moleques legais, merecem.

— Fechou, então?

— Amanhã é dia vinte e quatro e, pela manhã, tenho a reunião anual dos professores. Só passar aqui.

Professor Didi era demais. A Disney dele eram os filmes, de todos os estilos, de todos os países. Também adorava livros e sempre que eu terminava um meu, corria para contar para ele. Se ele já havia lido, vinha logo com uma resenha cheia de detalhes. Como professor da cidade, ganhava pouco, mas era a referência da molecada mais interessada, longe do crime. Se alguém queria ouvir uma frase legal, conversava com Big Dids. 

Vinte e quatro de dezembro. Logo após o café da manhã, fincamos o pé na  frente da escola. A reunião dos professores estava perto de terminar. Os outros meninos da viela passaram e tiraram sarro, falando que parecíamos cachorro de mercadinho esperando o frango sair. Eu nem ligava. Fechei os olhos e me imaginei em um avião balançando para caramba com destino a Disney. Abri rápido com um deles gritando.

— Olha lá os malucos que chamam o lixão de Disney. 

Ignorei ao escutar o portão da escola se abrir. Saíram Marta, Carmo, Maria Laura e Eliane. Diretor Carlão veio por último e passou a tranca. Professor Didi não apareceu. 

Corri na Marta, com quem era mais chegado. 

— Professora, onde está o professor Edson?

— Passou mal, querido. Estamos tristes, ele está até hospitalizado. Vai passar o Natal lá.

— Como assim? Combinamos com ele.

Cabelo me puxou o braço e percebi que tinha viajado em perguntar isso. Resolvi conversar com o diretor. 

— Senhor Carlão, senhor Carlão, espera um pouquinho.

— Oi filho, diga.

— Professor Didi onde está, como está?

— Na Casa de Saúde. Acabo de receber uma mensagem dele. Parece ter dado uma melhorada, seu estado não é preocupante.

— Ufa. Ok, diretor, obrigado. 

Saímos de lá meio de cabeça baixa, até que o Cabelo me lembrou sobre o whats do professor. Maior dúvida se mandávamos ou não mensagem, até que toquezinho na tela, pimba e foi. 

— Fala professor. Soubemos do ocorrido, mestre. Espero que esteja melhorando bastante. Bom Natal.

Andamos em direção ao hospital. Cinco minutos, dez, quinze e nada de resposta.  

— Magrinho, já era, irmão. Esse ano não vai ter parque. A gente nunca vai entrar sem a ajuda do Big Dids.

Quando a gente se preparava para vazar, escutamos a notificação de mensagem.

— Fala molecadinha, como vocês estão? Eu tô legal aqui. Senti umas coisas no peito e o médico pediu para eu ficar em observação. Mas já me liberou para sair logo mais. Só me orientou a dormir pelo menos cinco horas por noite. Sou professor e uber. Bom, vocês sabem do rolê.

— Caramba. 

— Pois é, tomar cuidado, não tem jeito.

— Professor, se liga, lembrou dos crachás do lixão?

— Vocês têm sorte, rapaziada. Passei mal na escola ontem e vim com a roupa do corpo para cá. Sabe o que tinha no meu bolso?

— Haha. Fala aí, pô!

— Como vocês gostam de dizer: dois ingressos para a Disney! Vou pedir para deixarem aí na portaria com vocês.  Bom natal, molecada. Vocês merecem.

— Valeu Big Dids, você é o cara. Bom natal.

O segurança grandão do portão logo sumiu e reapareceu com um envelope pardo. Na brechinha de tempo em que ele entregou nas nossas mãos, pudemos ver um sorrisinho vindo daquela cara de carnes grossas, contorcidas em direção ao nariz.

— Dois dias, Cabelo, só dois. Vinte e seis de dezembro chegando.

— Top.

Voltamos e já era meio de tarde. Na comunidade, a rabanada da Vó Manoela, como era conhecida, invadia a rua com seu cheiro de véspera de Natal.  Os pais com mais condições passavam nas bicicletas parecendo caracóis gigantes com as caixas de presentes.  A molecada toda acompanhava, até os sem condições de ganhar brinquedo, afinal os mais pobres sabiam que também brincariam. A vida pesada como chumbo, naqueles poucos dias caia leve, como uma poeira em suspensão, tudo por conta de uma conexão verdadeira que tomava conta das pessoas. 

O ano havia sido difícil em casa, minha mãe passou quase todo ele vivendo de bicos. A situação do Cabelo não era tão diferente, talvez até pior, porque a avó morreu e a casa ficou sem a pensão do governo. Mas não era a hora de pensar nisso, era o Natal chegando e, depois dele, vinte e seis. Sentados no meio fio, eu abri o envelope. 

— Cabelo, aqui estão essas belezinhas.

— Show. Perfeitas.

Junto aos crachás, um papel do escrito à mão pelo professor Dids.

“O Natal é a data preferida, também das coisas. Elas foram presentes, se tornaram meras coisas no canto do armário e, doadas, recebem, novamente, a glória de serem presentes novamente, em novas mãos. Aproveitem, molecada”. 

— Magrelo, Dids é Dids nas palavras. Mandou muito.

Dia vinte e cinco. Meu coração voava como balão ao ver minha mãe orgulhosa. A Disney me aguardava no dia seguinte, mas no Natal, mesmo sem presente, havia amor em cada lugar de casa. Minha Maria se perfumava, colocava a melhor roupa sem nem pensar em sair. Sem dinheiro e com os parentes distantes, era o dia em que eu e ela comíamos agradecendo e planejando bençãos muito maiores que os sonhos. Fui dormir com um misto de ansiedade a agradecimento.

Dia vinte e seis. Amanheceu um cheiro de cerveja quente, ecos de algumas tretas familiares e rango bom pronto para ser requentado.

— Cabelo, vem logo para a rua, seu preguiçoso. É Disney hoje!

A porta da casa cuspiu ele para fora. Ainda era possível ver aquela cabeleira toda amassada do lado em que ele havia dormido. 

— Bora que bora, moleque doido. Se liga que o rock me aguarda. Uhuuu!

A Disney estava tumultuada como sempre, muito lixo é dispensado das casas, mas nossa entrada foi tranquila, mal deu tempo de olharem as imperfeições do crachá. Miramos nas montanhas, colocamos as luvinhas e começamos a caçar as diversões. 

Não demorou uma hora e já pegamos o que queríamos, com direto a recolher mais alguns brinquedos para os novinhos da área. 

Cabelo e eu falávamos tanto que mal a gente se ouvia. Parecia uma batalha de vozes. Até que eu tropecei em um saco transparente grande todo sujo, com uns escritos em inglês. Nele, aquele aparelhinho de leitura kindle que eu tanto queria e um celular novinhos. Chamou nossa atenção a tela acesa do aparelho, aberto no aplicativo de mensagem. 

— Abre, abre, Magrelo, vamos ver.

— Cabelo do céu, olha o nome do grupo do maluco, “Disney”!

— Não acredito. Vamos ler as mensagens.

Mirei em um texto mais longo:

“Então, amigo, a viagem foi muito top. Visitei todas as atrações, não tive medo de montanha russa nenhuma. Bom, dava medo sim, mas depois que eu ia valia tudo. Os castelos, até os personagens para crianças eu curti. Só faltou mesmo você para rirmos juntos. As vezes eu penso que se a gente tem um amigo para rir junto, a gente cria uma memória para rir sempre.”

  — Eita, Cabelo, peraí, tem algo estranho. É só ele e mais um no grupo. Vou clicar no número desse outro maluco. 

— Nossa, que loucura, mano. É ele mesmo em outro número. Ele conversa sozinho, tipo simulando uma amizade. Ele em um número e também no outro.

  ­ — O cara não tem amigo, não acredito.

Nesse instante, já quase na saída do enorme lixão municipal apelidado de Disney todo o dia vinte e seis, olhei bem naquela cara feia, parceria desde os tempos de bebê e dei um abraço forte no Cabelo.

— Pô, Magrelo, faz isso não. A gente prometeu nunca chorar na Disney.

 

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